É fácil falar sobre nossas coisas: meu dinheiro, meu tempo, meu trabalho, meus projetos, meus dons. A linguagem cotidiana nos leva naturalmente a pensar em posse. A fé bíblica, porém, introduz outra perspectiva: tudo o que administramos foi recebido.

Essa verdade não elimina nossa responsabilidade. Pelo contrário. Quando reconhecemos que tudo pertence a Deus, passamos a compreender de outra maneira aquilo que está em nossas mãos.

Não somos proprietários absolutos da vida. Somos responsáveis por administrar aquilo que recebemos.

Tudo pertence a Deus

O Salmo 24.1 estabelece um fundamento para essa compreensão:

“Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém.”

A declaração é abrangente. Não se trata apenas de uma parte da existência considerada religiosa. Tudo está debaixo do senhorio de Deus.

Davi expressou essa mesma consciência quando reconheceu que aquilo que o povo apresentava ao Senhor já havia vindo das mãos dele. Jó, em meio à perda, também reconheceu que aquilo que possuía havia sido recebido do Senhor.

Reconhecer que tudo pertence a Deus não significa desprezar aquilo que temos. Significa compreender de onde veio e diante de quem somos responsáveis.

Essa mudança de perspectiva é fundamental para uma vida de mordomia cristã.

O trabalho também pertence a essa perspectiva

Nossa relação com o trabalho também muda quando reconhecemos que tudo pertence a Deus.

A capacidade de trabalhar, produzir, construir e desenvolver aquilo que recebemos não deve ser vista apenas como resultado da própria força. A Escritura relaciona a capacidade de produzir riqueza à ação de Deus.

Isso não elimina esforço, planejamento ou responsabilidade. Pelo contrário: o trabalho continua exigindo dedicação.

Mas o trabalhador cristão pode reconhecer que suas próprias capacidades não são uma conquista independente de Deus.

Aquilo que conseguimos realizar também deve ser recebido com humildade.

O trabalho deixa de ser apenas um instrumento para obter coisas e passa a fazer parte da administração da vida que Deus confiou.

Nossos recursos têm propósito

Se tudo pertence a Deus, então os recursos que administramos não existem sem propósito.

Há responsabilidades pessoais e familiares. Existe a necessidade de provisão para tempos difíceis. Há pessoas que precisam de cuidado. Há também oportunidades de contribuir para a obra de Deus.

A mordomia exige discernimento para reconhecer o propósito de cada recurso.

Isso evita dois extremos.

De um lado, podemos transformar o acúmulo em finalidade da vida. De outro, podemos gastar sem responsabilidade, como se nossos recursos não precisassem ser administrados.

Nenhuma dessas atitudes expressa uma boa mordomia.

O ponto não é simplesmente ter mais ou ter menos. É compreender para que aquilo que recebemos pode ser usado.

A bênção não termina em quem recebe

Reconhecer que tudo pertence a Deus também nos conduz ao propósito. Recursos, trabalho, capacidades e oportunidades não devem ser vistos apenas pelo que podem produzir para nós, mas pela maneira como podem ser administrados diante de Deus.

Quando pensamos somente em posse, a pergunta é: “O que isso pode fazer por mim?”

Quando pensamos em mordomia, outra pergunta surge: “Para que posso usar aquilo que recebi?”

Essa mudança desloca o foco da posse para a responsabilidade. O propósito de aquilo que recebemos será aprofundado no próximo artigo.

Viver com as mãos abertas

Reconhecer que tudo pertence a Deus produz uma postura diferente diante da vida.

Não significa desprezar os bens, abandonar responsabilidades ou considerar errado possuir alguma coisa. Significa não construir nossa identidade sobre aquilo que possuímos.

Podemos trabalhar, adquirir, planejar e cuidar dos nossos recursos sem permitir que eles ocupem o lugar de Deus.

Mãos abertas não significam irresponsabilidade. Significam confiança e disposição para administrar.

Quem vive com as mãos abertas reconhece a fonte, assume a responsabilidade e procura usar aquilo que recebeu de maneira coerente com o senhorio de Deus.

Isso também muda nossa relação com as perdas.

Se tudo é recebido, nossa identidade não pode depender exclusivamente daquilo que conseguimos manter. O valor da nossa vida não está determinado pelo tamanho da nossa conta, pela posição que ocupamos, pelo trabalho que realizamos ou pela quantidade de coisas que conseguimos acumular.

Somos mais do que aquilo que possuímos.

Somos administradores, não o centro

A compreensão de que tudo pertence a Deus desloca o centro da nossa vida.

O dinheiro deixa de ser o centro.

O trabalho deixa de ser o centro.

Os bens deixam de ser o centro.

Até mesmo nossas capacidades e oportunidades deixam de ser instrumentos para construir uma existência voltada exclusivamente para nós mesmos.

Tudo passa a ser visto dentro de uma realidade maior: Deus é o Senhor, e aquilo que recebemos pode ser administrado para a sua glória e para o bem de outras pessoas.

Essa consciência também nos ajuda a lidar melhor com a gratidão.

Em vez de olhar para a vida apenas pelo que ainda falta, aprendemos a reconhecer aquilo que já recebemos.

Em vez de perguntar apenas quanto conseguimos conquistar, começamos a perceber quanto foi colocado em nossas mãos.

E, em vez de terminar a reflexão na posse, avançamos para o propósito.

A pergunta que muda nossa relação com aquilo que temos

Talvez uma das perguntas mais importantes da mordomia cristã não seja “quanto eu tenho?”, mas:

“O que estou fazendo com aquilo que recebi?”

Essa pergunta alcança dinheiro, mas não termina nele.

Alcança o tempo.

Alcança o trabalho.

Alcança os dons.

Alcança as oportunidades.

Alcança os relacionamentos.

Alcança a própria vida.

Quando reconhecemos que tudo pertence a Deus, aquilo que temos deixa de ser apenas patrimônio e passa a ser responsabilidade.

E quando a responsabilidade encontra propósito, a vida começa a ser administrada de outra maneira.

Tudo pertence a Deus. Por isso, tudo o que recebemos pode ser administrado para honrá-lo e servir ao próximo.

Para refletir

  1. Que palavras ou atitudes revelam que considero certas áreas da vida exclusivamente minhas?
  2. Como tenho usado meus recursos além das minhas necessidades pessoais?
  3. Existe algo que Deus colocou em minhas mãos que eu poderia colocar a serviço de outra pessoa?

Perguntas frequentes

O que significa dizer que tudo pertence a Deus?

Significa reconhecer Deus como Criador e fonte de tudo e compreender que administramos aquilo que recebemos dele.

Isso significa que não posso possuir bens?

Não. A questão da mordomia não é negar a posse ou o trabalho, mas reconhecer a responsabilidade de administrar os recursos sob o senhorio de Deus.

Por que Deus nos abençoa?

A perspectiva da mordomia cristã mostra que a bênção recebida também pode carregar uma missão: aquilo que recebemos pode alcançar outras pessoas.

Leia também